O MÉTODO
Para melhor abordar este tema, inicialmente mostramos o quadro extraído de Matus, que compara as diferenças entre o planejamento tradicional e o Planejamento Estratégico Situacional (5).


Matus advoga que o planejamento tradicional é impotente para lidar com a complexidade da realidade social, por ter sido concebido com princípios deterministas, em que o cálculo se baseia na predição e não considera a capacidade de planejamento de outro ator nem a ocorrência de surpresas ou a existência de incertezas, enquanto a realidade é um sistema complexo de incerteza dura, com problemas quase-estruturados (quadro 2). Chama-se de incerteza dura pela precariedade de previsão do futuro, uma vez que, dada a complexidade do contexto de um determinado problema, o leque de desdobramentos, assim como as conseqüências das atitudes do gestor, são inúmeros: alguns conhecidos, outros possíveis de prever e grande parte desconhecidos. Além disso, há situações inimagináveis que ocorrem no meio de um processo e que freqüentemente pegam de surpresa o gestor menos avisado, os chamados "incêndios", e até mesmo os acidentes e as catástrofes naturais. O método nos reporta a encarar a realidade com todas essas nuances em que, obviamente, não é possível trabalhar com relações diretas de causa e efeito, pelo que acabamos de expor.


O PES mostra-se adequado para lidar com os problemas quase-estruturados1 dos sistemas de incerteza dura, por respeitar os requisitos básicos necessários ao planejamento em sistemas complexos. Dessa forma:

  • reconhece a existência de outros atores em situação;

  • reconhece sua capacidade de planejamento;

  • explica a realidade a partir dessa ótica.

Dispõe de métodos para lidar com surpresas e diferenciar os problemas bem-estruturados dos quase-estruturados, reconhece, a existência de recursos escassos - político, econômico, cognitivo e organizacional -, útil para tomada de decisões no presente e preparado para renovar o cálculo sobre o futuro, de acordo com as mudanças da realidade.
Antes de discutirmos o método propriamente dito, é necessário uma abordagem das condições a que o gestor municipal deve estar atento, no sentido de garantir efetividade às ações desenvolvidas em seu governo, quais sejam:

  • o projeto de governo;

  • sua capacidade para governar;

  • sua governabilidade.

Entende-se por capacidade de governo o elenco de qualificações reunidas pelo gestor e seu staff administrativo que lhes conferem a competência necessária à compreensão, elucidação e enfrentamento de problemas:

  • bagagem intelectual;

  • experiência;

  • expertise;

  • capacidade pessoal e institucional de governo.

O projeto de governo ou proposta de governo consiste na seleção de problemas que o gestor se dispõe a enfrentar durante seu período de governo e a estratégia escolhida para esse enfrentamento. A escolha dos problemas deve ser criteriosa, estratégica, pois implica a capacidade de resolvê-los e a viabilidade política desse enfrentamento, assim como a obtenção de resultados dentro do período de governo do gestor.
A governabilidade diz respeito à relação entre o peso das variáveis que o ator controla e o das que não controla somada à capacidade de percepção que o gestor tem dessa relação, ou seja, de sua limitação quanto ao controle majoritário de determinada situação. É essa capacidade de percepção que lhe possibilita identificar entre os atores envolvidos aqueles que têm maior controle da situação, as alianças possíveis, os enfrentamentos inevitáveis, as operações mais viáveis; enfim, abre a possibilidade de uma análise estratégica da seleção de problemas.
O gestor não pode se esquecer da necessidade constante de garantir um balanço positivo ao seu governo, ou seja, um saldo politicamente satisfatório da sua gestão, decorrente das medidas mais ou menos simpáticas ou aceitas no ambiente político e pelo eleitorado. Esse balanço depende do manejo dos chamados três cintos:

  • político: legalidade e representatividade política, ética, representatividade dos partidos, equilíbrio dos poderes, sintonia política do projeto;

  • econômico: manejo da economia;

  • intercâmbio de problemas: saldo do enfrentamento de problemas de maior valor para a população.

É importante lembrar que nunca se deve apertar os três cintos ao mesmo tempo. Os efeitos negativos de um devem ser compensados com os efeitos positivos de outro.