| PROBLEMAS GERENCIAIS E RECURSOS HUMANOS EM SAÚDE
APRESENTAÇÃO OU O QUE CARACTERIZA RECURSOS HUMANOS
EM SAÚDE
A partir deste capítulo, o texto passa a ser estruturado
de modo a trabalhar com os problemas comumente atribuídos
à área de recursos humanos, mas cuja solução
está em outras esferas. Essa linha de raciocínio
pode ser útil tanto para os responsáveis pelas unidades
de administração de recursos humanos quanto para
os que gerenciam as pessoas para obter êxito em outras atividades.
Assim, o foco se desloca para os grandes problemas atribuídos
a recursos humanos sob a ótica gerencial, de modo a tentar
identificar alternativas para estruturar os problemas e pensar
opções para sua solução em diferentes
cenários, em que há todo tipo de atores e jogos
de força em ação que podem ser utilizados
dependendo das circunstâncias. Para iniciar essa análise,
faz-se necessário colocar/recolocar algumas características
do setor da saúde e/ou dos recursos humanos em saúde.
É necessário compreender as características
e as especificidades do setor da saúde:
a. dificuldade de definir/medir saídas ou produtos:
num município, o que se procura realizar é diferente
do que se pretende num hospital ou numa área coberta
por um programa de saúde da família;
b. quantidade de tarefas de caráter emergencial ou
inadiável: controle de epidemias, notificação
de surtos, assistência a casos de emergência, de
fato, são inadiáveis. Processos de compra, por
piores conseqüências que possam trazer, são
adiáveis;
c. gravidade de erros ou imprecisões; um exame de laboratório
dúbio pode trazer sérios problemas a quem recebe
os resultados. Uma licitação ambígua pode
levar o responsável por ela à prisão;
d. maior lealdade à corporação profissional
que à organização: corporativismo não
é específico da área de saúde, mas
todos já ouviram falar da Máfia de Branco;
e. interdependência das atividades: a assistência
sempre envolve outras áreas, sejam os medicamentos, os
exames laboratoriais, a reabilitação. Isto ocorre
com freqüência cada vez maior, ainda mais na vigência
dos programas de saúde da família;
f. atividades altamente especializadas: o desejo dos trabalhadores
e dos usuários é que fossem todos altamente especializados.
No entanto, isto não é tão real assim,
como qualquer observador pode perceber. A educação
continuada é uma forma de lidar com isto;
g. pouco controle hierárquico sobre o grupo gerador
de trabalho, de despesas e de receita: se os médicos
parecem ter mais liberdade e mais direitos que os demais trabalhadores
do setor, é porque são quem faz girar o sistema
produtivo relacionado à saúde;
h. papel fundamental do cliente final no processo de trabalho:
já foi determinado que, da mesma forma que na educação,
os processos da saúde dependem da interação
entre receptor e prestador;
i. autoritarismo das instituições: desde os
jargões, impermeáveis ao cidadão comum,
até a forma de relacionamento, fazendo com que os receptores
se sintam culpados, pelo menos em parte, por resultados menos
satisfatórios
Na verdade, todos os aspectos acima relacionados podem ser encontrados
em diferentes situações e culturas organizacionais.
Nessas condições, característica seria apenas
a combinação delas todas. Afinal, interdependência
das atividades, por exemplo, faz parte do próprio conceito
de organização e de sistema. Pode-se dizer que os
profissionais de qualquer setor gostam de pensar em seus produtos
como não-definíveis, mensuráveis ou avaliáveis,
justamente para evitar tentativas de controles gerenciais, definições
de normas e rotinas etc. Erros e imprecisões podem ser
fatais numa cirurgia e muito graves num diagnóstico, mas,
na condução de um avião e/ou nos cálculos
de estrutura de concreto, também têm conseqüências
letais. Há, de fato, muitas tarefas inadiáveis,
principalmente na área técnica, mas certamente em
qualquer outra organização, pode-se obter o rol
daquilo que deve ser feito imediatamente. Finalmente, a especialização
das atividades traz como indagação a capacitação
dos profissionais. No entanto, nunca é demais lembrar que
uma porcentagem pequena daqueles que lidam com a área (e
com a vida e a saúde das pessoas) é especializada;
os demais têm educação básica, se e
quando a têm completa. Ao mesmo tempo, em qualquer setor,
o grupo nuclearmente responsável pelo trabalho (e por responder
pela produção e pelas receitas) é pouco controlável.
A grande especificidade, no caso, é que, na saúde,
se trata dos médicos, enquanto em outras áreas podem
ser os engenheiros, os advogados, os vendedores etc.
Grande parte daquilo que se chama "organizações
de saúde" tem a ver com seus recursos humanos, fazendo
parte daquilo que alguns teóricos chamam de "organizações
profissionais", nas quais se valorizam habilidades e conhecimentos
necessários para o desenvolvimento do trabalho final. Isso
se junta com a vontade que esses grupos profissionais têm
de manter seu poder sobre as decisões que influenciam seu
trabalho. Qualquer tentativa de democratização nessas
organizações tende a favorecer os profissionais,
pois os demais continuam trabalhando de acordo com aqueles chamados
"nucleares". Na América Latina, existe uma alta
prevalência de médicos na direção de
serviços assistenciais, secretarias etc. No setor da saúde,
não se costuma notar que a democratização
atinja de fato os cidadãos, mesmo na vigência de
conselhos municipais de saúde.
Quanto aos aspectos diretamente relacionados a recursos humanos,
não custa repetir que sempre os profissionais nucleares
tendem a preservar sua autonomia de ação. Além
disso, observa-se como especificidades:
a. os serviços de saúde são, por definição,
mãos-de-obra intensivas, mesmo na vigência de alto
grau de complexidade de equipamentos, principalmente se for
levada em conta a discussão sobre tecnologia, já
apresentada;
b. na área da saúde coexistem profissionais com
formação diferente, cada um com suas normas, parâmetros,
visões de mundo e noções de ética.
Em algumas instituições, isso pode ser considerado
o começo da formação da equipe multiprofissional;
em outras, explica-se, a partir daí, a inviabilidade
do trabalho multiprofissional; ainda em outras, admite-se que
é possível trabalhar com equipe multiprofissional,
desde que seja sem o médico (entendido como categoria
à parte). A multiprofissionalidade é muito mais
comum que a interprofissionalidade;
c. na saúde, o relacionamento interno responde com freqüência
ao status das diferentes profissões na sociedade. Um
capítulo importante da análise das organizações
de saúde é o que discute a introdução
de diversas profissões na área. Depois dos economistas,
administradores, advogados e informatas, chegaram mercadologistas
e comunicadores sociais. No início do século XXI,
começa-se a valorizar os profissionais da reabilitação;
d. na área da saúde, há disparidades entre
os níveis mais próximos do topo e os mais próximos
da base da pirâmide profissional: ainda mais gritante
que a diferença de status é a distorção
entre níveis salariais e exigências de cumprimento
de tarefas e carga horária, sem contar tipo de supervisão
realizada;
e. no setor da saúde, a hierarquia gerencial é
freqüentemente dissociada da hierarquia profissional, dependendo
da categoria e do nível hierárquico considerado,
criando problemas de duplo comando.
Outro aspecto a considerar é a transição
de conceitos sobre figuras jurídicas e tipos de organização
no setor. Já há muito discute-se o conceito de organizações
de saúde como de finalidade coletiva, por definição,
considerando até mesmo a possibilidade de elas serem entendidas
como públicas, mesmo quando não estatais. Atualmente,
filantropia, organizações não-governamentais
(ONGs), organizações sociais passam a ser parte
importante do cenário de estudos organizacionais; também
verifica-se que, cada vez mais, a sociedade oferece lugar para
os serviços. Deve-se, então, mudar a maneira de
se enxergar saúde, com o objetivo de profissionalizar a
prestação de serviços em todas as suas esferas,aprimorar
sua gestão e torná-la mais transparente para os
usuários. Já existem instâncias para ouvir
reclamações e sugestões de usuários
(clientes externos) e de trabalhadores (clientes internos). Algumas
dessas unidades têm a finalidade de atuar como unidades
de relações públicas, outras, como amortecedores
de tensões e outras, finalmente, parecem, de fato, associadas
à firme intenção de aprimorar os serviços.
Sem seus trabalhadores, nenhuma organização - pública,
privada com finalidade lucrativa ou filantrópica - será
capaz de melhorar sua prestação de serviços.
Nenhuma máquina "atenderá" bem um cliente.
Entre as características a buscar na organização,
sempre estão as pessoas que nela trabalham, que podem ser
mais ou menos qualificadas, mais ou menos numerosas, mais ou menos
motivadas, mais ou menos favoráveis ao que fazem, mais
ou menos felizes. Em cada uma dessas questões se coloca
o diagnóstico de conjuntura. Seja como for, sem pessoas
não existem organizações de saúde.
|