| Notas Explicativas
UM POUCO DE HISTÓRIA
As duas últimas décadas foram marcadas por intensas
transformações no sistema de saúde brasileiro,
intimamente relacionadas com as mudanças ocorridas no âmbito
político-institucional. Simultaneamente ao processo de
redemocratização iniciado nos anos 80, o país
passou por grave crise na área econômico-financeira.
No início da década de 80, procurou-se consolidar
o processo de expansão da cobertura assistencial iniciado
na segunda metade dos anos 70, em atendimento às proposições
formuladas pela OMS na Conferência de Alma-Ata (1978), que
preconizava "Saúde para Todos no Ano 2000", principalmente
por meio da Atenção Primária à Saúde.
Nessa mesma época, começa o Movimento da Reforma
Sanitária Brasileira, constituído inicialmente por
uma parcela da intelectualidade universitária e dos profissionais
da área da saúde. Posteriormente, incorporaram-se
ao movimento outros segmentos da sociedade, como centrais sindicais,
movimentos populares de saúde e alguns parlamentares.
As proposições desse movimento, iniciado em pleno
regime autoritário da ditadura militar, eram dirigidas
basicamente à construção de uma nova política
de saúde efetivamente democrática, considerando
a descentralização, universalização
e unificação como elementos essenciais para a reforma
do setor.
Várias foram as propostas de implantação
de uma rede de serviços voltada para a atenção
primária à saúde, com hierarquização,
descentralização e universalização,
iniciando-se já a partir do Programa de Interiorização
das Ações de Saúde e Saneamento (PIASS),
em 1976. Em 1980, foi criado o Programa Nacional de Serviços
Básicos de Saúde (PREV-SAÚDE) - que, na realidade,
nunca saiu do papel -, logo seguido pelo plano do Conselho Nacional
de Administração da Saúde Previdenciária
(CONASP), em 1982, a partir do qual foi implementada a política
de Ações Integradas de Saúde (AIS), em 1983.
Estas constituíram uma estratégia de extrema importância
para o processo de descentralização da saúde.
A 8ª Conferência Nacional da Saúde, realizada
em março de 1986, considerada um marco histórico,
consagra os princípios preconizados pelo Movimento da Reforma
Sanitária.
Em 1987 é implementado o Sistema Unificado e Descentralizado
de Saúde (SUDS), como uma consolidação das
AIS, que adota como diretrizes a universalização
e a eqüidade no acesso aos serviços, a integralidade
dos cuidados, a regionalização dos serviços
de saúde e implementação de distritos sanitários,
a descentralização das ações de saúde,
o desenvolvimento de instituições colegiadas gestoras
e o desenvolvimento de uma política de recursos humanos.
O capítulo dedicado à saúde na nova Constituição
Federal, promulgada em outubro de 1988, retrata o resultado de
todo o processo desenvolvido ao longo dessas duas décadas,
criando o Sistema Único de Saúde (SUS) e determinando
que "a saúde é direito de todos e dever do
Estado" (art. 196).
Entre outros, a Constituição prevê o acesso
universal e igualitário às ações e
serviços de saúde, com regionalização
e hierarquização, descentralização
com direção única em cada esfera de governo,
participação da comunidade e atendimento integral,
com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo
dos serviços assistenciais. A Lei nº 8.080, promulgada
em 1990, operacionaliza as disposições constitucionais.
São atribuições do SUS em seus três
níveis de governo, além de outras, "ordenar
a formação de recursos humanos na área de
saúde" (CF, art. 200, inciso III).
No entanto, um conjunto de fatores - como problemas ligados ao
financiamento, ao clientelismo, à mudança do padrão
epidemiológico e demográfico da população,
aos crescentes custos do processo de atenção, ao
corporativismo dos profissionais da saúde, entre muitos
outros - tem se constituído em obstáculos expressivos
para avanços maiores e mais consistentes. Tudo isso redunda
em uma sensação de inviabilidade do SUS, apesar
de o caminho ser unanimemente considerado como correto.
Existe um consenso nacional de que uma política substantiva
de descentralização tendo como foco o município,
que venha acompanhada de abertura de espaço para o controle
social e a montagem de um sistema de informação
que permita ao Estado exercer seu papel regulatório, em
particular para gerar ações com capacidade de discriminação
positiva, é o caminho para superar as causas que colocam
o SUS em xeque.
Assim, é necessário desenhar estratégias
para superar o desafio da transformação a ser realizada,
e uma delas diz respeito ao gerenciamento do setor da saúde.
É preciso criar um novo espaço para a gerência,
comprometida com o aumento da eficiência do sistema e com
a geração de eqüidade.
Dessa forma, entre outras ações, torna-se imprescindível
repensar o tipo de gerente de saúde adequado para essa
nova realidade e como deve ser a sua formação.
Esse novo profissional deve dominar uma gama de conhecimentos
e habilidades das áreas de saúde e de administração,
assim como ter uma visão geral do contexto em que elas
estão inseridas e um forte compromisso social.
Sob essa lógica, deve-se pensar também na necessidade
de as organizações de saúde (tanto públicas
como privadas) adaptarem-se a um mercado que vem se tornando mais
competitivo e às necessidades de um país em transformação,
em que a noção de cidadania vem se ampliando dia
a dia.
Nesse contexto, as organizações de saúde
e as pessoas que nelas trabalham precisam desenvolver uma dinâmica
de aprendizagem e inovação, cujo primeiro passo
deve ser a capacidade crescente de adaptação às
mudanças observadas no mundo atual. Devem-se procurar os
conhecimentos e habilidades necessários e a melhor maneira
de transmiti-los para formar esse novo profissional, ajustado
à realidade atual e preparado para acompanhar as transformações
futuras.
É esse um dos grandes desafios a serem enfrentados.
O PROJETO SAÚDE & CIDADANIA
A partir da constatação da necessidade de formar
gerentes para o nível municipal, um conjunto de instituições
articulou-se para desenvolver uma estratégia que pudesse
dar uma resposta ao desafio.
Assim, o Instituto para o Desenvolvimento da Saúde (IDS)
e o Núcleo de Assistência Médico-Hospitalar
da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de
São Paulo (NAMH/FSP - USP), com o apoio político
do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde
(CONASEMS), da Organização Pan-Americana da Saúde
(OPAS) e do Ministério da Saúde, com o apoio financeiro
do Banco Itaú, desenvolveram este projeto com os seguintes
objetivos:
- Apoiar, com fundamento em ações, a implantação
do Sistema Único de Saúde (SUS).
- Criar uma metodologia e organizar um conjunto de conhecimentos
que possam ser aplicados amplamente no desenvolvimento de capacitação
gerencial em gestão de ações e serviços
de saúde prestados em municípios com mais de 50.000
habitantes.
- Colocar à disposição dos municípios
brasileiros um conjunto de manuais dedicados à gestão
local de serviços de saúde, tanto em forma de
livros como em meio magnético e ainda por intermédio
da Internet.
- Gerar a formação de massa crítica de
recursos humanos com capacidade para interpretar, analisar e
promover mudanças organizacionais em favor de uma maior
eficiência do setor da saúde.
Mediante a organização e consolidação
de um conjunto de conhecimentos já disponíveis,
o projeto desenvolveu uma série de doze manuais que privilegia
a área gerencial e que, além de reunir os conhecimentos
existentes de cada tema específico, articula as experiências
práticas de seus autores, gerando um produto final capaz
de oferecer ao usuário um caminho para seu aprendizado
de forma clara e acessível. Portanto, não se trata
de um simples agrupamento de manuais e sim de um projeto educativo
e de capacitação em serviço não tradicional,
destinado a criar e fortalecer habilidades e conhecimentos gerenciais
nos funcionários que ocupam postos de responsabilidade
administrativa nos serviços locais de saúde.
Os manuais que compõem o projeto e seus respectivos autores
são os seguintes:
1. Distritos Sanitários: Concepção e Organização
- Eurivaldo Sampaio de Almeida, Cláudio Gastão
Junqueira de Castro e Carlos Alberto Lisboa.
2. Planejamento em Saúde - Francisco Bernardini Tancredi,
Susana Rosa Lopez Barrios e José
Henrique Germann Ferreira.
3. Qualidade na Gestão Local de Serviços e Ações
de Saúde - Ana Maria Malik e Laura Maria Cesar Schiesari.
4. Gestão da Mudança Organizacional - Marcos
Kisil. Colaboração de Tânia Regina G. B.
Pupo.
5. Auditoria, Controle e Programação de Serviços
de Saúde - Gilson Caleman, Marizélia Leão
Moreira e Maria Cecília Sanchez.
6. Sistemas de Informação em Saúde para
Municípios - André de Oliveira Carvalho e Maria
Bernadete de Paula Eduardo.
7. Vigilância em Saúde Pública - Eliseu
Alves Waldman. Colaboração de Tereza Etsuko da
Costa Rosa.
8. Vigilância Sanitária - Maria Bernadete de
Paula Eduardo. Colaboração de Isaura Cristina
Soares de Miranda.
9. Gestão de Recursos Humanos - Ana Maria Malik e José
Carlos da Silva.
10. Gestão de Recursos Financeiros - Bernard François
Couttolenc e Paola Zucchi.
11. Gerenciamento de Manutenção de Equipamentos
Hospitalares - Saide Jorge Calil e Marilda Solon Teixeira.
12. Gestão de Recursos Materiais e Medicamentos - Gonzalo
Vecina Neto e Wilson Reinhardt Filho.
A METODOLOGIA UTILIZADA
Após a elaboração da primeira versão
dos manuais, realizaram-se três módulos de treinamento
com os cinco municípios indicados pelo CONASEMS (Diadema-SP,
Betim-MG, Foz do Iguaçu-PR, Fortaleza-CE e Volta Redonda-RJ)
com o objetivo de testá-los e expô-los à crítica.
A proposta de aplicação desenvolveu-se da seguinte
forma:
- Módulo 1: apresentação pelo docente
do material produzido e discussões em sala de aula, com
a proposição de sua aplicação ao
retornar para o campo.
- Módulo 2 (seis semanas após o primeiro): apresentação
pelos alunos das dificuldades encontradas no campo e transformação
da sala de aula em um espaço de consultoria e troca de
experiências.
- Módulo 3 (seis semanas após o segundo): avaliação
dos avanços obtidos, das limitações, dos
conteúdos dos manuais e do processo como um todo.
Cada módulo de treinamento dos manuais 1, 2, 3 e 4 prolongou-se
por quatro dias, contando com cerca de cinco participantes de
cada município, de preferência do nível político-administrativo.
Para os manuais operacionais (de 5 a 12), os treinamentos desenvolveram-se
em módulos de três dias, com três participantes
por município.
Na avaliação final, ficou claro que todo o processo
foi extremamente positivo tanto para os participantes como para
os autores, que puderam enriquecer os conteúdos dos manuais
mediante a troca de experiências e a colaboração
dos mais de cem profissionais que participaram dos seminários.
Também ficou evidenciado que, para o desenvolvimento futuro
do projeto, o primeiro módulo (didático) é
dispensável para o processo de aprendizado. Entretanto,
é fundamental um momento de esclarecimento de dúvidas
e de proposição de soluções para as
dificuldades encontradas, principalmente se isso ocorrer em um
espaço que permita troca de idéias com outras pessoas
com experiências semelhantes.
O projeto Saúde & Cidadania propõe que, paralelamente
ao uso dos manuais, seja utilizado o projeto GERUS - Desenvolvimento
Gerencial de Unidades Básicas de Saúde, para a capacitação
de gerentes de unidades de baixa complexidade. O GERUS é
um projeto desenvolvido conjuntamente pelo Ministério da
Saúde e pela Organização Pan-Americana da
Saúde que pretende institucionalizar mudanças nos
padrões de organização dos serviços,
com o objetivo de adequá-los à realidade de cada
localidade ou região, e já está em uso em
vários municípios do país.
A IMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO
O material resultante do processo relatado pode ser utilizado
diretamente pelas secretarias municipais da Saúde para
a capacitação dos profissionais que ocupam postos
de responsabilidade administrativa.
Eventualmente, a simples leitura dos manuais e a discussão
entre seus pares poderão ser consideradas pelos gerentes
como insuficientes para um melhor desempenho das atividades descritas,
ou talvez haja a necessidade de um maior aprofundamento das questões
levantadas. Nesse caso, o gestor municipal poderá solicitar
ao Núcleo de Saúde Pública ligado à
universidade mais próxima de seu município ou, se
houver, à escola de formação da secretaria
da Saúde de seu Estado, a realização de um
período de treinamento (nos moldes do descrito no módulo
2), tendo como base o material oferecido pelo projeto Saúde
& Cidadania. Como já foi mencionado, esse processo
torna-se muito mais proveitoso quando possibilita a troca de experiências
entre profissionais de diferentes municípios.
Uma outra proposta, ainda em fase de desenvolvimento, é
a transformação dos manuais em hipertexto, tornando-os
disponíveis em CD-ROM e em site na Internet, este último
possibilitando inclusive a criação de chats para
discussão de temas específicos e um diálogo
direto com os autores.
Nesse entretempo, o Núcleo de Assistência Médico-Hospitalar
da Faculdade de Saúde Pública deverá realizar
reuniões com os núcleos de Saúde Coletiva
que estiverem dispostos a formar monitores para o processo. Também
poderá realizar treinamentos em municípios que os
solicitarem. Para isso, devem entrar em contato com a Faculdade
de Saúde Pública, por meio de carta, fax ou e-mail.
PERSPECTIVAS
A cultura organizacional do setor público brasileiro, em
geral, não estimula a iniciativa e a criatividade de seus
trabalhadores. Entretanto, deve-se lembrar que todo processo de
mudança implica a necessidade de profissionais não
apenas com boa capacitação técnica, mas com
liberdade de criação e autonomia de ação.
O projeto Saúde & Cidadania oferece aos municípios
um instrumental testado de formação de gerentes.
O desafio agora é utilizá-lo, tendo sempre presente
a perspectiva de que a transformação está
em marcha e ainda há um longo caminho a ser percorrido
no processo de implementação e viabilização
do SUS.
GONZALO VECINA NETO
RAUL CUTAIT
VALÉRIA TERRA
Coordenadores do Projeto
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