VIDAS ESQUECIDAS

A família sumiu

O poder público assume responsabilidade de dar sustento, atenção e carinho a vítimas de doenças mentais abandonadas pelos parentes. Agora, eles podem trocar o hospital por residência terapêutica em Joinville

Há 42 anos, a vida de Pedro* está num bairro de São José que ficou conhecido pelo nome de um dos mais antigos manicômios do Estado, a Colônia de Santana, na Grande Florianópolis. É mais tempo do que o homem de 61 anos passou na cidade em que nasceu. Aos 19 anos, Pedro foi levado, escoltado por policiais, de Joinville para o então manicômio em São José.

Na época, ele sofria surtos cada vez mais frequentes de esquizofrenia (doença que causa alucinações). Assim, Pedro começou a perder o vínculo com a família. De uma época em que não havia remédios adequados para manter a doença sob controle, ficou para os familiares a lembrança do jovem que ficava violento de uma hora para a outra. As visitas escassearam até cessar.

Da colônia, Pedro só saiu em 2005. Passou a dividir uma casa com outros cinco homens, no outro lado da avenida Engelberto Koerich, antigo endereço da colônia e atual do Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina (IPQ). Na casa, todos os moradores enfrentam doenças mentais para ter um dia a dia como o de qualquer pessoa. Foi o início da adaptação de Pedro ao que será um grande desafio para alguém que vive há tanto tempo debaixo da asa de uma instituição. Em meados de 2010, ele voltará a morar em Joinville com outros sete moradores, numa casa alugada pela Prefeitura.

A casa em que Pedro vai morar é uma iniciativa que tenta preencher uma lacuna. O Ministério da Saúde hoje condena a permanência de doentes mentais em locais que possam ser considerados asilos. Na esteira do movimento chamado de Reforma Psiquiátrica, o governo federal quer evitar que doentes mentais passem a vida inteira em celas de instituições que acabam conhecidas como “casas de loucos”. Mas não diz o que deve ser feito quando pacientes internados não têm para onde ir. Pedro sabe onde seus familiares moram em Joinville. Só que há tempos a família deixou para o governo estadual a tarefa de cuidar dele.

No mês passado, Pedro foi sozinho a Joinville para rever a cidade pela primeira vez. Pegou um ônibus na rodoviária e dispensou o táxi para poder caminhar. “Vi tudo pavimentado, muitos automóveis. Não me perdi, mas a casa onde vivi não existe mais”, conta. De Joinville, ele se recorda do primeiro trabalho, dos 14 aos 19 anos, na Raimann, uma fábrica de máquinas que já deixou a cidade. Lembra de matagais e ruas de chão.

Quando Pedro foi para a colônia, recebeu os tratamentos mais comuns: choques elétricos e as injeções de insulina, que provocam convulsões e coma. Ambos serviam para acalmar pacientes instáveis. Os primeiros medicamentos específicos tinham doses altas demais. Fizeram surgir efeitos colaterais. Hoje, Pedro sente tremores nas mãos.

O que mantém o cotidiano dele atualmente são oito comprimidos diários. Assim, consegue levar uma vida bem próxima da normal. Sua tarefa na casa é lavar a louça e o banheiro. Pedro só sente um pouco de vergonha do vício em cigarros. “Gosto também de cachimbo”, confessa.

camille.cardoso@an.com.br

CAMILLE CARDOSO  | JOINVILLE

 

VIDAS ESQUECIDAS

Joinville terá casa terapêutica

Em Joinville, a residência terapêutica foi um pedido da Justiça, em resposta a uma ação do Ministério Público. Em SC, há só três casas, todas em São José. São ligadas ao IPQ, que substituiu a colônia no atendimento psiquiátrico. Na Residencial Atena, onde vive o joinvilense Pedro, os próprios moradores pagam o aluguel e se sustentam com o dinheiro de aposentadorias e outros benefícios.

Joinville é o primeiro município a manter uma moradia: as casas serão sustentadas pela Prefeitura. A primeira será criada em fevereiro. Como a lotação está esgotada, outra deverá ser aberta em agosto. Na primeira, no Floresta, os moradores serão pessoas que saíram da cidade (algumas, há décadas) e não podem contar com as famílias. Há ainda dois internados na ala psiquiátrica do Hospital Regional Hans Dieter Schmidt. Os futuros moradores da casa se conhecerão nesta sexta-feira em Joinville, durante um almoço de confraternização.

Os que precisam de ajuda para tomar remédios ou se locomover, serão apoiados o dia inteiro por um cuidador. Mas a ideia é que os moradores tenham uma vida autônoma. O IPQ acompanha 12 pacientes da região de Joinville que não podem contar com as famílias. Apenas dois recebem visitas. Pelo menos cinco estão fora de suas cidades desde a década de 70. Pacientes há tanto tempo internados passaram por um processo conhecido por “institucionalização”. Para eles, é difícil entender a vida fora da enfermaria do IPQ.

A enfermeira Eliani Costa, do IPQ, quer estimular as prefeituras a criarem casas como essa. “As residências não podem ser tachadas de asilos ou colônias. As pessoas têm de ser vistas como comuns, serem atendidas no posto de saúde. Não podem depender para sempre de hospitais”, afirma.

VIDAS ESQUECIDAS

Leitos que podem ser extintos

As residências terapêuticas têm um ponto desfavorável que precisa ser considerado, afirma o psiquiatra Sérgio Tamai, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Ele lembra que as casas também ajudam indiretamente a reduzir o número de leitos psiquiátricos. Isso tem ocorrido no próprio IPQ. Assim que o paciente sai da enfermaria e recebe alta, o leito que ele ocupava antes é extinto.

Para o psiquiatra, a redução drástica de leitos é uma visão distorcida da política antimanicomial. “A internação é um recurso para casos agudos, em que nada dá certo”, afirma. O médico acredita que a falta de leitos pode impedir o atendimento do número crescente de doentes psiquátricos. Tamai faz parte da comissão da ABP que acompanha a política de assistência psiquiátrica no Brasil. O governo federal tem se empenhado em estimular a criação de centros de atenção psicossocial (os Caps), que não têm internação por período maior que 24 horas. Apesar de SC estar acima da média nacional, há ainda cidades com mais de 20 mil habitantes que não possuem Caps. É o caso de São José. Em Joinville, há quatro Caps.

A enfermeira Eliani Cunha, do IPQ, defende as residências para impedir uma situação: há familiares que não apoiam os doentes, mas ficam com o dinheiro de aposentadorias por invalidez.

AS ESTRUTURA PARA TRATAR DOENTES MENTAIS
- Caps 1, Infanto-Juvenil Cuca Legal
Focado em adolescentes com até 16 anos. Não atende deficientes intelectuais. Auxilia menores de 14 anos que têm problemas com drogas. Tem assistente social, psicólogo, psiquiatra, terapeuta ocupacionais e enfermeiras. Rua Alexandre Schlemen, 275. Anita Garibaldi. Fone: 3432-3602.
- Caps 2, Centro de Atenção Diária “Nossa Casa”
Acompanha o tratamento e ajuda os familiares. Tem psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, farmacêutico e enfermeiro. Rua Alexandre Schlemen, 850. Anita Garibaldi. Telefones: 3422-7161 e 3433-5902.
- Pronto Acolhimento Psicossocial (Paps)
Aconselha, ou seja, faz o primeiro atendimento e encaminha para outros serviços. Dispõe de psiquiatra, clínico e agente de saúde. Rua Engenheiro Niemeyer, 300. Centro. Fone: 3433-9659.
- Caps “Dê-lírio” (Caps 3)
Atende transtornos mentais graves. Oferece internação noturna para pacientes encaminhados por um Caps. Rua Plácido Olímpio de Oliveira, 1489. Atiradores. Fone: 3423-0245.
- Serviços Organizados de Inclusão Social
Oficinas de geração de renda e lazer. Tem terapeuta ocupacional, psicólogo e oficineiros. Rua São Paulo, 2.107. Itaum. Fone: 3438-3564.
- Hospital Regional Hans Dieter Schmidt
Tem 32 leitos, pronto-socorro. A internação máxima é de 30 dias. Rua Xavier Arp, sem nº. Boa Vista.
Fone: 3461-5500.

 

 

 

 

 

 

SURTO DE MENINGITE

Unidos contra o mal

Reunião de secretários de Saúde está marcada para hoje em Criciúma

 

Secretários de Saúde do Sul do Estado se reunirão hoje em Criciúma para discutir uma forma de combater o surto de meningite que atinge a região. São 56 casos confirmados.

Ontem, uma equipe da Secretaria de Estado da Saúde foi a Criciúma para tratar do problema. A coordenadora estadual do programa de controle da meningite viral, Maria Inez Sant ' ana Rodrigues, disse que o surto “ não apresenta tanto risco ” porque a maior parte dos casos é viral (menos grave que a bacteriana).

Segundo Maria Inez, o contágio pode acontecer depois de as crianças brincarem na areia e colocarem a mão na boca sem lavá-las.

– O vírus, quando alojado na boca, tem um período de transmissão de uma semana. Quando estiver no intestino, o tempo é de quatro semanas – ressaltou Maria Inez.

O secretário de Saúde de Criciúma, Paulo Conti, recomendou que as pessoas infectadas fiquem em casa para que não transmitam o vírus. A média na cidade é de quatro doentes curados para três novos casos. Conti considera esse número aceitável, mas diz que a secretaria se preocupa por causa da resistência do vírus.

Para combater a doença, cartilhas informativas estão sendo produzidas. Serão distribuídas em Criciúma e cidades vizinhas. Outra medida são parcerias com a Secretaria de Educação, a Associação Feminina de Assistência Social (Afasc) e a Vigilância Epidemiológica.

Os principais sintomas da doença são febre alta, forte dor de cabeça, vômito e rigidez da nuca. Cuidados com a higiene, como lavar a mão antes de comer e depois de usar o banheiro, cortar as unhas, lavar frutas e verduras, são formas de prevenção.

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