• Disparidade

    Sim, Florianópolis tem mais hospitais do que Joinville. Mas será que só isso explica a disparidade no número de médicos. De acordo com dados do Conselho Regional de Medicina, 2.991 profissionais estão em atividade na Capital.

  • Pouco mais de um terço

    Em Joinville, são 1.078 médicos, pouco mais de um terço do observado na Capital. Os números levam em conta os profissionais das redes pública e privada.

 

 

 

 

 

EDITORIAS

Santa Catarina e a Aids

 

O balanço sobre a incidência da Aids no país, que foi divulgado, quinta-feira, pelo Ministério da Saúde, indicou que o número de casos da doença, em Santa Catarina, no ano passado, registrou um aumento sobre os dados do ano anterior. No ranking nacional dos 20 municípios com mais de 50 mil habitantes que apresentaram as maiores taxas de pessoas infectadas pelo HIV, cinco deles se localizam em Santa Catarina, e os demais no vizinho Rio Grande do Sul. A constatação sublinha a necessidade de novas e maciças ações de prevenção e de conscientização.

O documento do Ministério da Saúde acende um sinal de alerta que não pode ser ignorado. Santa Catarina manteve sua triste posição de terceiro estado com a mais alta taxa de casos, com 26,9 para cada grupo de 100 mil habitantes. Camboriú é a cidade com a segunda maior taxa de incidência no país, com preocupantes 91,3 casos por 100 mil habitantes; entre as capitais, Florianópolis ocupa o segundo posto, com 57,4 casos por 100 mil habitantes. No início da semana, um relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas Sobre a Aids informava que há, no planeta, 33 milhões de pessoas infectadas com o HIV, e que, a cada dia, são contabilizados 7,4 mil casos novos. O mesmo relatório da ONU enfatizava a necessidade de reforçar as políticas de prevenção, e lembrava que, os novos medicamentos e tratamentos antirretrovirais possibilitam, sobrevida de qualidade cada vez maior e melhor aos doentes.

Pandemia em plena atividade, a Aids exige atenção e ações permanentes da saúde pública. Em Santa Catarina e no mundo inteiro. Os números estão na mesa

 

 

 

PROTEÇÃO X PREÇO

Não deixe sua pele ficar assim

O protetor solar é indispensável mesmo para quem está longe da praia ou da piscina. O problema é que ele é muito caro

 

Verão chegando e a exposição ao sol aumenta consideravelmente. E é só dar uma voltinha na praia para encontrar aqueles mais afoitos que querem ficar em dia com o bronzeado em um piscar de olhos. O resultado é aquela cor “vermelho camarão”. É preciso ficar atento. Afinal, os cuidados com a pele não podem ser somente na estação mais quente do ano. Para evitar doenças como o câncer de pele, todas as pessoas deveriam se proteger. Mas quem pode pagar filtro solar para estar protegido todos os dias?

Uma fórmula complexa, com matérias-primas caras e muitos testes de eficácia. Tudo isso soma-se ao custo de produção e ao registro da indústria. O resultado é uma média de R$ 26,75 para cada 120ml de protetor solar.

A dermatologista Silvana Francesca de Souza Moreira é taxativa: todas as pessoas, a partir dos seis meses de idade, devem usar o protetor solar diariamente, mesmo nos dias nublados, pois as nuvens deixam a radiação passar.

A coordenadora da campanha nacional para a prevenção do câncer de pele e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Selma Cernea, reforça: o filtro solar é importante, mas não é a única medida a ser tomada. É uma das estratégias para evitar problemas de saúde causados pelo sol, além do envelhecimento precoce da pele. Óculos, chapéus e roupas apropriadas não podem ser dispensados. E nem os mais morenos podem deixar de passar o protetor. Eles não estão imunes ao câncer de pele. Silvana alerta que a frequência de aplicação deve ser de duas vezes ao dia para quem não fica exposto o dia todo, uma vez no início da manhã e outra no início da tarde.

A farmacêutica Silvana Cristina Trauthrman lembra que, mesmo poucos minutos de exposição, como no carro, já são motivo suficiente para o uso dor protetor. No escritório ou em casa o perigo não deixa de existir: lâmpadas brancas também emitem radiação.

Quem está na praia, na piscina ou trabalha ao ar livre precisa reforçar o filtro a cada duas horas. Se a transpiração for intensa, a reposição deve ser ainda mais frequente, e depois de mergulhos, o protetor necessariamente precisa ser passado em todo o corpo, mais uma vez. Mesmo os produtos à prova d'água perdem o poder de eficácia.

Segundo a dermatologista, só pode utilizar a informação de que é à prova d'água o filtro que comprovar a manutenção de 50% no corpo após um mergulho, por exemplo.

lilian.simioni@diario.com.br

LILIAN SIMIONI
Fator 15, 30 ou 60?
Dermatologista Silvana Moreira
– O correto é o uso do fator 30 para peles claras. Para peles morenas, pode ser o 15. O filtro de 30 não oferece o dobro da proteção do de 15. O fator 60 pode ser usado em cicatrizes e manchas. Se o fator 30 oferece 90% de proteção por duas horas (em exposição ao sol, sem muita transpiração e sem mergulhos), o 60 oferece 98%. As pesquisas são referentes a uma camada espessa de protetor passada na pele, ou seja, 30ml do produto, para exposições completas, na praia, por exemplo.
Oncologista Marcos Montenegro
– O mínimo de protetor é o fator 30 para peles claras, e pessoas de pele escura podem usar um protetor mais baixo. Uma camada fina é suficiente para proteger a pele, sendo passada em locais expostos ao sol.
Farmacêutica Silvana C. Trauthrman
– Há diferença do fator de proteção do 30 para cima, mas não é uma progressão geométrica, ou seja, o fator 60 não oferece o dobro de proteção do fator 30. É importante formar uma camada de protetor em todas as áreas do corpo, inclusive as cobertas.
Coordenadora da campanha nacional de prevenção do câncer de pele Selma Cernea
– O fator abaixo do 15 não é aconselhável porque a pessoa precisaria passar com muita frequência. A efetividade do protetor de fator 2 é de 50%, do 15 é 39,3%, do 30 é 96,7% e do 60, 98,3%. O indicado é passar o produto cobrindo bem a pele, com uma camada generosa.

 

 

 

PROTEÇÃO X PREÇO

Projetos que facilitam a distribuição

 

Fabiana Lima acredita que a população de baixa renda poderia ter algum benefício do governo federal para conseguir comprar os protetores solares. A assessoria do Ministério da Saúde informou que não há subsídios ou distribuição do produto, porque existem programas somente para medicamentos e o protetor solar é um cosmético.

A ideia de distribuição do produto não é inédita. Na Câmara Federal existem mais de 20 projetos e indicações que tratam do assunto. A discussão vem desde 1994. As proposições são as mais diversas: distribuição do produto pelo Sistema Único de Saúde (SUS), redução da alíquota de impostos sobre os filtros solares, inclusão de bloqueadores e protetores no conceito de medicamento, entre outras. Alguns estão arquivados, mas a maioria está em tramitação. Uma indicação foi aprovada neste ano com a sugestão de produção e distribuição do protetor solar pelo SUS.

Em SC, na Assembleia Legislativa, 10 projetos, indicações e moções também tramitam. Uma indicação, propõe a distribuição de protetor solar aos professores de educação física da rede estadual. Na Capital, agentes comunitários de saúde e da dengue recebem um frasco de protetor solar. com reposição quando o produto acaba .

 

ALERTA AOS PAIS

Criciúma registra 31 casos de meningite

Vigilância Epidemiológica alerta contra a falta de cuidado com a

 

Um surto de meningite viral colocou em alerta a Secretaria de Saúde de Criciúma, no Sul do Estado. Desde o dia 1º de novembro a Vigilância Epidemiológica registrou 31 casos da doença, já confirmados pelos exames enviados ao Laboratório Central (Lacen). Sexta-feira, mais uma criança com sintomas foi internada no Hospital Infantil Santa Catarina, mas os médicos ainda aguardam a confirmação.

O secretário do Sistema de Saúde, Paulo Conti, estranha a ocorrência da doença nessa época do ano, pois ela é típica de inverno. Exames serão feitos para identificar que tipo de vírus age na região.

– Já orientamos diretores de escolas públicas e particulares sobre o assunto – esclareceu Conti.

A coordenadora da Vigilância Epidemiológica de Criciúma, Joyce Savi, explica que a meningite é transmitida pela falta de higiene.

Em casos de febre, vômito, dor de cabeça e rigidez na nuca os pais devem procurar um médico.

– Observamos os movimentos e o grau de desidratação – explica a pediatra Gisele de Castro.

A meningite é a inflamação das meninges infectadas com vírus ou bactéria. A doença atinge pessoas de qualquer idade, mas principalmente as crianças .

 

 

TARJA PRETA

Dose, remédio ou veneno?

O antidepressivo Rivotril é o segundo medicamento mais vendido no Brasil

 

 

 

TARJA PRETA

Diazepan na caixa d'água

 

– Coloca Diazepan na caixa d'água da cidade. Já que todo mundo toma remédios mesmo...

A expressão é reproduzida pela assistente social Mari Ângela de Freitas e a enfermeira Cecília Rodrigues Heckrath, ambas da Divisão de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde, para explicar a questão da banalização dos medicamentos tarja preta.

A conversa, comum nas rodas de profissionais que trabalham com os usuários deste tipo de medicação, mostra o quanto o assunto faz parte do cotidiano das pessoas.

O Diazepan é um tranquilizante do grupo dos benzodiazepínicos. Trata de transtornos de ansiedade e o principal efeito é a sensação de relaxamento.

A Divisão de Saúde Mental está ligada à Gerência de Coordenação de Atenção Básica. Dali, partem as diretrizes de saúde mental para que sejam implantadas nas 36 regionais, conforme as determinações do Ministério da Saúde.

No site da Divisão de Saúde Mental, um item chama a atenção. É o espaço destinado para tratar do chamado estresse pós-traumático para a região que sofreu com o desastre das chuvas, no Vale do Itajaí, em novembro do ano passado.

Técnicos dos municípios da região estão sendo capacitados para atuar junto a estas populações. O trabalho é coordenado por um profissional da Associação Brasileira de Psiquiatria, que todos os meses desembarca em Santa Catarina, onde treina e capacita 30 servidores da rede pública municipal.

– O estresse é visível. Toda vez que chove, aciona no cérebro situações como: vai cair minha casa, meus amigos vão morrer, minhas coisas vão se perder – observa a enfermeira.


Estresse precisa ser tratado, sim

Por um tempo, explica, as pessoas vão procurar antidepressivos. Mas isso não é loucura. Isso é real, é concreto. O estresse precisa ser tratado por um médico para não se transformar em depressão, segundo Cecília Rodrigues Heckrath.

Para a assistente social, a questão da medicação precisa ser ampliada.

– Por trás da expressão “Diazepan na caixa dágua” esconde-se o fato de que mazelas como dificuldade em criar os filhos, o uso de drogas, o estresse do emprego estão sendo medicalizadas – diz a assistente social Mari Ângela.


Depressão

A depressão afeta 120 milhões de pessoas no mundo.
É considerada a quarta enfermidade mais incapacitante.
Estudos feitos em 1996 indicam que em 2020 será a segunda, perdendo apenas para doenças isquêmicas do coração.
Fonte: Organização Mundial de Saúde

Os ansiolíticos
O que causam
Inibem algumas funções do sistema nervoso, causando relaxamento muscular, sonolência e diminuição da ansiedade.
Para que servem
Estimulam a ação de um ácido (conhecido como gaba) no cérebro. Inibe a ativação de áreas relacionadas ao medo e à ansiedade.
Uso
Indicados para tratar transtornos mentais. Não são recomendados para diminuir tensões do cotidiano.
Efeitos colaterais
Sonolência excessiva e diminuição da coordenação motora. Podem ocorrer dificuldades no processo da aprendizagem e da memorização.
Dependência
Algumas pessoas desenvolvem dependência em cinco anos. Outras se viciam em menos de 30 dias. Podem ocorrer crises de abstinência.
Dosagem
Quanto menor a dose, menor a probabilidade de o paciente desenvolver dependência

 

TARJA PRETA

Só remédio não dá conta da vida real

 

 

Desde que orientada, a medicação controlada faz bem. Mas não se trata de uma panaceia, uso para todos os males. Embora, para casos de transtornos mais graves sejam considerados fundamentais.

A observação é da psiquiatra Letícia Maria Furlanetto, professora no Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Mas a médica reconhece:

– Viver é mesmo difícil. Por isso, a gente deve olhar os problemas de frente, entender e respeitar os nossos próprios limites. Ainda que sejam eficazes, remédio não dá conta da vida real.

A psiquiatra recomenda que o tema sobre o uso de medicamento tarja preta deve ser sempre tratado com cautela. Lembra que, no começo de um processo de depressão ou síndrome do pânico, medicamentos que hoje estão mais popularizados como o Rivotril podem ajudar.

– A grande questão é haver alguém por trás, um profissional que faça o diagnóstico correto e que prescreva de acordo com a necessidade. Não dá é para tomar por conta própria – diz.


Muito cuidado com a sugestão do demônio

Sobre as pessoas que tomam remédio “receitado” por amigo, a psiquiatra faz um aviso categórico:

– Aí, o que era para ser bom, vira demônio.

A médica também faz considerações sobre pacientes que, com o tempo, vão evoluindo o quadro para doenças como depressão e transtornos bipolares. Algumas, em estágio inicial podem ser apenas vistas como ansiosas.

Pílulas de todos os tipos
> 15% da população brasileira consome mais de 48% da produção farmacêutica.
> 25% a 70% do gasto em saúde nos países em desenvolvimento correspondem a medicamentos, em comparação a menos de 15% nos países desenvolvidos.
> 50% a 70% das consultas médicas geram prescrição medicamentosa.
> 50% de todos os medicamentos são prescritos, dispensados ou usados inadequadamente.
> 75% das prescrições com antibióticos são errôneas.
> Somente 50% dos pacientes, em média, tomam corretamente seus medicamentos.
> Cresce constantemente a resistência da maioria dos microrganismos causadores de enfermidades infecciosas
prevalentes.
> Aos dois anos de idade, algumas crianças receberam aproximadamente 20 aplicações medicamentosas injetáveis.
> A metade dos consumidores compra medicamentos para tratamento de um só dia.
> Estatísticas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelam que os medicamentos respondem por 27% das intoxicações no Brasil e que 16% dos casos de morte por intoxicações são causados por medicamentos.
Fonte: Ministério da Saúde

 

TARJA PRETA

“Não precisava passar por isso "

 

Tenho síndrome do pânico e também sou bipolar. Este diagnóstico certeiro veio bem tarde. Antes disso, um caminho por médicos, consultórios, clínicas, igrejas, centro espírita, terapias convencionais e alternativas. E muita, muita medicação.

A questão é que, olhando hoje, talvez eu não precisasse ter passado por isso. Foi um exagero. Talvez eu não estivesse doente. É possível que eu tenha ficado doente. E isso pode acontecer com você.

Eu tomei Aplicitil, Lexotan, Anafranil, Tofranil, Tegreto e tantos outros que nem recordo. Sofri tanto pela medicação que surtei. Aos 46 anos, tive que me aposentar. Deixei o prazer de dar aulas para crianças até o quarto ano.

Se você gosta da sua profissão, vai entender o que isso significa. Fui professora concursada da rede pública municipal por mais de 20 anos. Não tive filhos. Os aluninhos eram os meus meninos e as minhas meninas. Hoje, sou ‘avó'. Às vezes, encontro meus ex-alunos na rua e eles dizem: “Professora, este é o meu filho”. Por isso digo que sou avó.

A medicação estragou minha saúde. O lítio arrebentou o meu estômago e me causou úlcera. Desde o começo eu tomava lítio e sentia dor. Vomitava sangue. Quando fiz o exame, o clínico geral se disse horrorizado. Falou que meu estômago estava totalmente arruinado por causa da medicação em excesso e prolongada.

Agora me dou conta. Era demais. Altas doses. Eu dormia o dia inteiro. Não atinava a mais nada. Precisei trocar de psiquiatra para ter noção do que estava acontecendo com meu corpo. Aos poucos, este foi tirando a medicação. Hoje, tomo apenas o Pondera, um comprimido à noite, um Tegretol para evitar crises convulsivas ocasionadas por tanta medicação.

Ainda estou na luta para curar a síndrome do pânico e dosar também a minha bipolaridade. Já me sinto muito melhor. Hoje, atino a tomar banho, comer, andar. São coisas comuns, mas que o uso indiscriminado destes remédios tarja preta me fizeram deixar de fazer.

Vai meu alerta, de alguém que sofreu e sofre pelo excesso de remédios. A medicação maltrata a gente. Tem médico que receita dose para leão, como se o paciente não fosse uma pessoa. Acho também que alguns, e não vou generalizar por existir bons profissionais, enxergam a gente como ratos.

Ratos de experimento de laboratórios. Não querem ouvir a gente, mas enxotar para que em seguida entre o novo paciente, o novo rato. Ou como se a gente fosse marionete nas mãos deles. Alguns parecem ter esquecido o juramento de Hipócrates, que é de salvar vidas.

Eu ainda tive um pouco de tempo, mesmo com todos os efeitos colaterais. Outros não. Morreram sem saber que com as doses estavam se matando. Ou estão aí, sem saber que estão. Eu faço parte do grupo de pessoas que vai ao médico para aliviar uma dor emocional. Minha dor não foi minimizada, e os efeitos maximizados. Inclusive, no meu corpo.” n

REGINA, PROFESSORA APOSENTADA, 49