SAÚDE
Pronta para encarar uma pizza
De rim novo, a menina Silvana de Lima Antunes é recebida com uma festinha surpresa em Grão Pará
Quando chegou em casa, em Grão Pará, no Sul do Estado, por volta das 21 de sexta-feira, Silvana de Lima Antunes, de 16 anos, começou a viver uma nova vida. Ela recebeu um rim dia 4 de novembro no Hospital São José, em Joinville. Mas a nova vida passa por planos simples, como beber uma Coca-Cola ou comer um belo pedaço de pizza.
Silvana foi surpreendida na chegada de casa com a presença de alguns amigos e parentes, do prefeito em exercício Estevão Ghizoni, da secretária social Ivolir Salete Souza e do diretor da escola onde estuda, Dorvalino Dacoregio. Todos queriam abraçar e fotografar a menina que brincava em um parque de diversões e foi levada às pressas de helicóptero para o transplante de rim que mudaria a sua vida, história que foi contada no “Fantástico”, da Rede Globo.
Apesar da viagem cansativa de 317 km entre Joinville e Grão Pará, Silvana acordou cedo no sábado. Antes das 9 horas já brincava com os joguinhos do celular – uma das suas diversões prediletas – e com Diego, de 13 anos, um dos seus seis irmãos. De vez em quando, tinha de interromper a brincadeira para atender a alguém perguntando sobre a viagem e, principalmente, sobre a saúde.
“Agora, minha vida vai ficar bem boa, principalmente porque não vou mais precisar fazer hemodiálise. Nunca podia comer uma pizza por causa do meu problema, mas logo vou fazer isso”, comemora a adolescente que está longe de ser tímida, mas é tão econômica nas palavras como nos sorrisos.
Os pais dela, João Maria Antônio e Genecilda de Lima, são só alegria, sentimento que praticamente não tinham desde que descobriram a doença de Silvana. “Nunca pude trabalhar para ajudar na casa porque tinha de dar atenção especial a ela e aos outros filhos”, conta Genecilda.
Como já passou de ano, Silvana não precisa se preocupar com deveres de casa e provas. Mas faz planos de dar uma passada na biblioteca para pegar algum bom livro.
GRÃO PARÁ
| POR UMA CASA NOVA |
| A Secretaria de Assistência Social prometeu uma casa nova para Silvana. A família dela, que deixou Salto do Lontra (PR) para viver em Grão Pará há cinco anos, tem dificuldades para pagar o aluguel. |
| ATLETA E TORCEDORA |
| Mesmo garantindo ter habilidade para fazer gols, Silvana não demonstra ter paixão ou simpatia pelos grandes clubes brasileiros. Vai na “onda” do irmão Diego e diz que torce “um pouco” para o Palmeiras. |
MÉDICOS
PROCURAM-SE pediatras, psiquiatras, neurologistas...
Prefeitura de Joinville tem autorização para contratar médicos até sem concurso, mas não consegue preencher as vagas. Salários considerados baixos e falta de infraestrutura são as principais queixas
Dos três dias de provas de um dos maiores concursos públicos já realizados pela Prefeitura de Joinville, ontem foi a tarde mais disputada para quem quer ser médico na rede municipal de saúde. São nove vagas no Hospital Municipal São José. Entre elas, uma única vaga de plantonista clínico para a qual concorrem 13 candidatos. Para duas vagas de médico auditor, há 11 inscritos. E 13 querem um dos três postos de plantonista intensivista.
Daí, acaba a competição. Outras 197 vagas para médicos do concurso tiveram um índice inferior a 2,3 candidatos por vaga. Numa, a procura foi zero (ninguém se inscreveu para especialista em ecocardiografia em Joinville). Em outras, há mais vagas que inscritos. É o caso de pediatras, psiquiatras, neurologistas. A conclusão: mesmo após um concurso deste tamanho, ainda faltarão médicos na cidade em 2010.
Na Prefeitura, as vagas desse concurso cobririam a falta de médicos em postos de saúde, nos dois prontos-atendimentos e no PAM do Boa Vista. No São José, existe a necessidade de profissionais específicos. Entre eles, os radioterapeutas e o físico médico que trabalharão no novo aparelho para tratamento de câncer que começa a operar em 2010. “Se tem vaga urgente? Tem hoje mesmo. Se aparecer um profissional com bom currículo e registro em dia, contratamos sem concurso. Temos autorização”, conta o secretário municipal de Saúde, Tarcísio Crócomo.
O problema não é de hoje, e também não é exclusividade de Joinville. Contratar e manter um quadro estável de profissionais é difícil em Jaraguá do Sul e Florianópolis (veja quadro na página ao lado). Os argumentos são sempre os salários, considerados pouco atrativos. Em Joinville, o salário inicial tem aumentado. Desde dezembro de 2007, subiu 35% nos cargos que pedem um mínimo de três horas diárias (fora a gratificação). Já um médico que trabalha nos programas de saúde da família (PSF) ganha ao todo quase R$ 9 mil mensais por sete horas diárias. Não é ruim, mas, desde o ano passado, os profissionais têm de cumprir ponto. Muitos viram como uma desvantagem decisiva.
Novo reajuste – promessa de campanha do prefeito Carlito Merss – será discutido para os servidores da saúde em 2010, afirma Crócomo. O secretário concorda que, na comparação com a iniciativa privada, o salário é baixo. Mas sustenta que os médicos que escolhem trabalhar na rede pública não veem apenas isso.
“Pesa muito a questão do ambiente de trabalho, de não ter equipamento”, afirma. Dos profissionais de saúde, os médicos são os que mais entram e saem da Prefeitura. Também é o único cargo com déficit. Este ano, 67 médicos foram exonerados de cargos públicos municipais. Tirando os que se aposentaram, são 41 médicos que pediram para sair. Para tentar equilibrar, a Prefeitura contratou 47.
CAMILLE CARDOSO | JOINVILLE
| OPINIÃO DO SECRETÁRIO |
O secretário municipal da Saúde, Tarcísio Crócomo, diz não acreditar que a dificuldade em se contratar médico em Joinville tenha a ver com uma “reserva de mercado” articulada pelos profissionais. “Em cidades pequenas acontece. Em Joinville, acredito que não”, opina. |
| UMA LONGA ESPERA |
A falta de médicos na rede pública traz sérios prejuízos para o paciente que precisa, principalmente, de um especialista. Há cerca de 40 mil consultas represadas em Joinville. A maioria espera por consulta com um oftamologista. A segunda maior procura é por otorrinos. |
MÉDICOS
Com motivos para querer continuar
A infectologista Ilma Linhares Marchesini é a médica que está há mais tempo na Prefeitura de Joinville. Desde 1984. Aos 52 anos, atende a cerca de 20 pacientes por dia na Unidade Sanitária, na rua Itajaí, no Centro. A profissional acompanha, muitas vezes por anos seguidos, o tratamento de pessoas que enfrentam doenças como a Aids.
A médica enumera vantagens ao trabalhar no serviço público. Consegue manter vínculo com pacientes e investir em políticas de saúde pública no programa de prevenção à Aids. Nos últimos anos, também assumiu posições de coordenação no programa.
Já pensou em desistir algumas vezes e não acha o salário inicial grande coisa para um médico que precisa participar de congressos e comprar livros de medicina. Mas diz que, no geral, consegue tirar estímulo do trabalho diário.
“Os ambulatórios são diferentes dos hospitais, onde se tem de lidar com a falta de aparelhos. Aqui, tenho o meu escritório e tudo de que preciso. Consegui há pouco tempo um ar-condicionado após trabalhar dez anos no calor. A gente vai indo”, brinca.
GRAVIDEZ
DOS MALES, O MENOR
Uso de antidepressivos durante a gravidez pode prejudicar o bebê, mas a falta de cuidados também é arriscada
Quando Sherean Malekzadeh Allen soube da gravidez, aos 43 anos, estava casada há dois, e já havia passado por dois abortos. Não tinha mais esperança de ter um bebê. Ao receber a notícia, poderia ficar muito feliz, mas ocorreu o contrário. Sherean ficou imobilizada pelo medo, teve náuseas e mergulhou em uma depressão. Encarou um dilema complexo: usar remédios fortes que poderiam prejudicar a formação do bebê ou lutar sem medicamentos e prejudicar o filho de outras formas?
“Com qualquer coisa que se ingere durante a gravidez, você pensa: ‘será que estou prejudicando o meu bebê? Será que está crescendo com um dedo a mais?'”, questionava-se Sherean.
Cerca de 25% das gestantes sofrem de depressão, e 12% usam antidepressivos durante a gravidez. Embora muitos desses remédios sejam aparentemente seguros, estudos recentes relacionam seu uso com um pequeno aumento no número de má-formações. Além disso, pode ocorrer a hipertensão pulmonar, que prejudica o fluxo de sangue nos pulmões, e até mesmo crise de abstinência após o nascimento.
Um estudo dinamarquês, publicado no “British Medical Journal”, afirmou haver ligação entre antidepressivos e o aumento de problemas cardíacos em bebês. Outra pesquisa afirmou que crianças com mães usuárias estavam mais suscetíveis a cuidados neonatais intensivos. Com a polêmica, pesquisadores da Associação Americana de Psiquiatria e da Faculdade Americana de Obstetras e Ginecologistas decidiram rever os dados existentes e publicaram um artigo afirmando que a psicoterapia é o mais indicado nos casos leves ou moderados.
Em quadros severos, os riscos dos antidepressivos são relativamente baixos. Mulheres com histórico de depressão ou que tomam antidepressivos precisam consultar um médico antes de engravidar. Só assim podem saber dos riscos para decidir se seguem ou não o tratamento medicamentoso. “Não há como dar uma orientação geral a todas as pacientes”, ressalta Kimberly Yonkers, professora da Escola de Medicina de Yale.
Sherean recorda que precisava de tratamento intenso e decidiu, aflita, tomar a medicação. Hunter nasceu perfeito, pesando três quilos, em novembro de 2008. “Ele é feliz, saudável e adorável.”
THE NEW YORK TIMES
| OS RISCOS DA MEDICAÇÃO |
- Aumento no número de problemas cardíacos nos bebês. Ainda assim, o risco absoluto é pequeno (menos de 1%), e o problema geralmente se resolve naturalmente. |
- De 15% a 30% dos bebês sentem a ausência da droga após o nascimento. Entre os sintomas, que duram cerca de duas semanas, estão irritabilidade, choro fraco ou ausência de choro, dificuldade para respirar, hipoglicemia e temperatura instável. |
- O uso nas últimas semanas de gravidez pode aumentar em até seis vezes a incidência de hipertensão pulmonar, causando problemas respiratórios sérios. |
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