Reportagem especial
Ainda é cedo para baixar a guarda
Secretaria de Estado da Saúde recomenda manter cuidados para evitar que doença evolua e mate mais
O assunto deixou de ser o mais comentado nas esquinas. O calor dos últimos dias tem evitado aglomerações em lugares fechados. Mas o combate à gripe A tem que continuar. Embora não saibam quando, especialistas alertam que pode haver uma nova onda da doença.
No Terminal de Integração do Centro, em Florianópolis, por onde passam cerca de 120 mil pessoas por dia, em 15 minutos percebe-se que muita gente deixou de se preocupar com a gripe. Durante esse tempo, ontem e na sexta-feira, ninguém parou para desinfetar as mãos com o álcool em gel disponível no local para combater o vírus.
A procura pelo atendimento médico também diminuiu. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, o número de internações clínicas por gripe era 600 na primeira quinzena de agosto. Ontem, 315. No período, a quantidade de pessoas com problemas respiratórios na UTI aumentou. Passou de 45 para 79. Para a secretaria, é um indício de que os pacientes estão menos preocupados com a doença. Quando procuram ajuda, já estão gravemente doentes.
O pneumologista Roberto Hess de Souza, superintendente de Hospitais Públicos de Santa Catarina, ressalta que o momento é delicado porque o calor permite o relaxamento dos pacientes. Com base em pandemias como a gripe espanhola (a primeira onda foi de março a junho de 1918; a segunda, de agosto a novembro do mesmo ano), ele acredita em uma segunda onda da doença, apesar de a primeira não ter chegado ao fim:
– Pode ser em outubro, em novembro ou no ano que vem. Não se conhece o comportamento do vírus, mas estamos nos preparando para isso, principalmente porque é normal que a segunda onda mate mais.
Hess diz que o governo está em fase de contratação de 171 profissionais, entre médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, para atender em hospitais catarinenses se essa nova onda chegar ao Estado.
Os 15 respiradores e os cerca de 30 monitores alugados para utilizar em casos de doenças respiratórias nas UTIs durante a pandemia não serão devolvidos.
O infectologista Marcelo Vieira destaca que, para haver uma nova onda, é preciso que, primeiramente, haja queda significativa nos casos. As recomendações de prevenção não mudaram e devem ser seguidas.
– Ao voltar, o vírus afeta quem não pegou antes ou, caso tenha mutado, pode atingir aqueles que já estiveram doentes. O importante é continuar se cuidando, porque o H1N1 ainda está em circulação – destaca.
O comportamento do vírus H1N1 no México leva especialistas a acreditarem que ele se prolifera nas estações frias. Se for assim, a probabilidade é de que a segunda onda chegue ao Estado no próximo outono, diz Roberto Hess.
Até lá, o Brasil deve ter vacina contra a gripe A. O médico lamenta que a medicação terá que ser destinada aos grupos de risco, como os doentes do coração (detalhes no box ao lado), já que 150 milhões de pessoas não poderão ser vacinadas por falta de capacidade de produção.
Os tipos de influenza, nome científico da gripe, são monitorados no país desde 2000. De acordo com o infectologista Luiz Gustavo Escada, o novo vírus, que também deve ser monitorado, por enquanto está em fase de adaptação ao corpo humano:
– Penso que essa nova onda é uma incógnita. Não se sabe quando existirá, muito menos se o vírus voltará mais ou menos agressivo.
No Estado, a gripe A já provocou a morte de 32 pessoas.
Onda de calor gera sensação de segurança
A balconista Marcia Schmitt chegava a sonhar que estava com gripe A. Faz duas semanas que o pesadelo não a atormenta mais. Em compensação, ela deixou de ser prevenida como era.
Usuária do terminal de ônibus do Centro de Florianópolis, ela é uma das pessoas que transitam pelo local e não utilizam o álcool, antes ou depois de andar de ônibus. Como tem bronquite, admite que, há duas ou três semanas, usaria o produto. Hoje, justificando que o calor amenizou a incidência da doença, ignora o recipiente. Atualmente, continua com o hábito de lavar bem as mãos.
– Estou mais tranquila por causa do calor. Já não tenho o mesmo medo de ficar doente e não me salvar da doença – diz Marcia.
O infectologista Luiz Gustavo Escada também sente uma certa despreocupação com a doença:
– Nos consultórios, a gente percebe que a procura em função da doença diminuiu. Mas haverá mais períodos de frio e a situação ainda não voltou ao normal. A melhor forma de prevenir, que é com a higiene básica, não deve ser deixada de lado em época nenhuma.
Nas farmácias também se vê a diferença. Na Capital, o atendente Clóvis dos Santos conta que, até meados de agosto, chegava a vender caixas com 50 máscaras para uma mesma pessoa. Agora, não vende mais de 10 avulsas. Com o álcool gel, a queda nas vendas não foi diferente: de três potes por dia, passou a vender um ou nenhum.
Em Joaçaba, no Meio-Oeste, a procura por máscaras e álcool em gel está em queda há duas semanas. A farmacêutica Deise Rosa, da Farmácia Preço Popular, diz que a redução chega a 90%.
– Teve dias em que todos os clientes entravam e pediam pelos produtos. Agora, depois que o pavor pela nova gripe passou, estamos há vários dias sem que alguém pergunte o preço e compre álcool – revela Deise.
Na Farmácia do Sesi também houve queda, segundo o farmacêutico Ricardo Lunkes.
Em Lages, na Serra Catarinense, a queda nas vendas de luvas descartáveis e máscaras em algumas farmácias chega a 80% em relação à semana passada. A comercialização de álcool em gel continua grande, segundo farmacêuticos ouvidos pela reportagem. Em São José, na Grande Florianópolis, as farmácias também estão registrando quedas nas vendas de máscaras e álcool gel. De acordo com Aline Gomes, atendente da Drogaria e Farmácia Catarinense, desde quinta-feira passada a procura pelos produtos diminui bastante.
– Há duas semanas chegamos a ficar zerados durante cinco dias. Nem na distribuição conseguíamos reposição. Mães estavam desesperadas e queriam comprar as máscaras para os filhos irem à escola. Hoje, se sair um produto por dia, é muito – diz.
Mortes no país chegam a 657
O Ministério da Saúde divulgou ontem um novo balanço sobre a gripe A no país. O número de mortes chega a 657.
Houve um acréscimo de cem óbitos em comparação com o levantamento da semana passada. Apesar do aumento no número de mortes, teve uma diminuição no número de pacientes com gripe A que evoluíram para casos graves.
Entre 23 e 29 de agosto, o ministério recebeu 151 notificações de casos graves da gripe A. De 16 a 22 de agosto, foram 639. “A análise epidemiológica dos dados permite concluir que a transmissão do novo vírus e os casos graves provocados por ele estão diminuindo no Brasil”, afirmou a pasta, em nota.
O número de casos confirmados da doença no país chega a 6.592.
Ontem, a Organização Mundial de Saúde (OMS) informou que o preço de uma dose da vacina contra a gripe A poderá variar de US$ 2,5 (R$ 4,70) a US$ 20 (R$ 37,70), dependendo da economia do país comprador.
– Os países de maior renda poderão pagar entre US$ 10 e US$ 20 a dose, os países com renda média pagarão mais ou menos a metade disso, e os países mais pobres pagarão a metade da metade – afirmou a médica Marie-Paule Kieny, especialista em vacinas da OMS.
Cerca de 30 protótipos de vacinas estão sendo desenvolvidos às pressas para combater a gripe A.
Cacau Menezes
Haja Viagra
A Pfizer, fabricante do Viagra, vai pagar uma multa recorde de US$ 2,3 bilhões (R$ 4,3 bi), informou, ontem, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. A empresa foi condenada em uma ação civil e penal por promover a prescrição ilegal de remédios.
Depois dessa, vai ser preciso muito Viagra para levantar suas finanças.
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